A força comunicativa dos poemas de Rosalia de Castro não deixou indiferente a ninguém desde que em 1863 a escritora se estreara na sua língua natal com o poemário Cantares Galegos, volume e símbolo galeguista que neste ano 2013 cumpre o 150 aniversário.

A valentia de escrever bem numa língua considerada morta para a gramática e o papel, ainda que viva para o ouvido e o coração, também apaixonou a inspiração do músico Moreno Fuentes, quem, ainda abulense, se deixou embalar pelos ecos que a enorme poeta interpretou com as antigas cordas da tradição oral. A presente atualização à grafia moderna das suas transcrições responde à necessidade de normalização da nossa língua original, à precisão de usar as letras comuns hoje conhecidas e estendidas pelo mundo, à absoluta urgência de relacionamento com o exterior e de achegamento ao âmbito cultural e linguístico que nos é próprio. Isso que chamamos Lusofonia e que, se a Galiza tivesse sido mais soberana na história dos últimos séculos, provavelmente se teria chamado Galaicofonia.

  Com Rosalia e o Rexurdimento, com o galeguismo, renasceu nos inteletuais galegos a consciência da reintegração linguística. No século XX, no contexto de uma crescente presença galega como parte ativa da comunidade lusófona, desenvolveu-se já desde os tempos de Biqueira e Guerra da Cal, depois nos anos 70 e 80 com o nascimento das associações reintegracionistas, e no século XXI ampliando-se e tomando mais formas, o relacionamento internacional entre entidades galegas e  lusófonas do âmbito cívico-social, e também dos âmbitos oficial e diplomático. A constante presença galega nas decisões internacionais sobre língua portuguesa, nomeadamente nos Acordos de 86 e de 90, e a recente incorporação das palavras galegas aos vocabulários portugueses, são bons indicadores do papel que a Galiza pode representar na Lusofonia, e servem como advertência de que devemos saber ocupar o espaço que nos corresponde.

   A música não ficou indiferente a este movimento reintegrador e nos últimos tempos incrementou-se o número de publicações musicais em galego comum ou português galego: Em 2005 saía o cancioneiro Cantos e Bailes da Galiza (Difusora). Em 2008 a revista de etno-musicologia Etno-folk (Dos Acordes) publicava o seu n.º 12 quase integramente em galego comum. Em 2010 também a Dos Acordes dava ao prelo o Cancioneiro de Marcial Valladares. Em 2011 saía o primeiro número da revista internética Opúsculos das Artes e as Edições da Galiza publicavam o Cantos Lusófonos. Em 2012 editava-se o volume A música de seis poemas universais de Ernesto Guera da Cal (Dos Acordes – Academia Galega da Língua Portuguesa). E em 2013, na altura disto escrever, sai o caderno homenagem a Rosalia de Castro, Cantar-te-ei, Galiza (Dos Acordes – Conservatório Profissional de Compostela). Isso sem explicitar os numerosos discos, artigos, programas de concertos, notas e resenhas disseminadas ao longo destes anos nas publicações de variados coletivos, entidades e instituições galegas.

   Esse mesmo espírito preside esta publicação que procura reintegrar no mundo lusófono aquilo que foi feito na soidade dos campos galegos, como o pássaro que canta no seu ninho sem saber que canta para o mundo. [...]

Isabel Rei Samartim

Onde conseguir:

Oito Canções de Juan Antonio Moreno Fuentes sobre poemas de Rosalia