Artigo publicado no número 11 da revista portuguesa de música Glosas, patrocinada pelo Movimento Patrimonial de Música Portuguesa (MPMP):

 

 

A viola no século XIX: Música de salão na Madeira

Isabel Rei Samartim

www.isabelrei.com

São sete da tarde no exótico Funchal e já se ouve o som de uma viola a descer pelas ensolaradas ruelas. É um ano qualquer do século XIX e na antiga casa de pedra o machete dispõe-se a entrar na conversa. Harmonia e melodia entrelaçadas, algumas pessoas iniciam a dança enquanto outras mais gulosas petiscam deliciosos bolos do caco com manteiga e alho. A música flui nos serões na Madeira, em qualquer casa, em qualquer canto. Sem darem por isso, os cadernos de música anotada com esmero são parte fundamental da vida madeirense.

 

 Passados quase duzentos anos, dois desses cadernos são encontrados num mercado do Funchal pelo alaudista e musicólogo lisbonense Prof. Manuel António de Jesus Morais. Graças a terem caído em boas mãos podemos hoje conhecer e desfrutar do conteúdo destes cadernos, onde cada peça é uma pérola musical a descrever a sonoridade daquelas reuniões madeirenses. Depois do achado, surge logo a vontade de reviver esse ambiente e a necessidade de gravar as peças, propósito que assumiu o Governo Regional da Madeira.

 

Na sequência da parceria musical entre a Galiza e a Madeira (2011-2013) que a Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia levava por diante, e das conversas com os professores Paulo Esteireiro e José Luís do Pico Orjais nasceu a ideia de me convidar a estudar aquela música, realizar uma seleção e gravar o resultado, ideia com que me honraram e me deram a enorme satisfação de ver cumprido o desejo de gravar o meu primeiro disco. Não há palavras para expressar a gratidão que lhes devo, como a todas as pessoas envolvidas no projeto.

 

José Luís Orjais e eu publicávamos em 2010 (Editora Dos Acordes), o cancioneiro galego de Marcial Valladares, caderno de canções para voz e piano pertencente ao Arquivo de Música da família Valladares (Galiza), também do século XIX, composto por umas seiscentas obras para vários instrumentos. Entre as peças desse arquivo havia mais de oitenta escritas para viola, voz e viola e duas violas. Na realidade, tanto o repertório como as formas musicais do Arquivo Valladares coincidem em grande medida com as também observadas nestes dois manuscritos madeirenses.

 

Estes cadernos são compostos por cerca de cem obras para viola, a maior parte para o instrumento a solo, mas também para voz e viola e duos de violas. O repertório compõe-se de fantasias, temas com variações, sonatinas, canções, exercícios e peças breves, compostas ou arranjadas para o instrumento, abundando as melodias italianas, as citações operísticas e os ritmos de dança. A maior parte das obras é anónima e há uma notável semelhança na caligrafia do copista em todas elas, o que sugere a ação de uma única mão em ambos os cadernos. Num deles, o rasgado da etiqueta com o nome do proprietário não facilita a sua identificação. Aguardo que, contudo, algum dia venha a ser possível a elaboração de hipóteses sobre este ponto, para dessa maneira começar a reconstruir o mapa de intérpretes nesta bela ilha da Macaronésia.

 

Como tinha de fazer uma seleção, deixei-me levar pela minha subjetividade e escolhi as obras que considerei mais belas e cativantes, as que dentre todas eu desejaria ter interpretado num dos salões da cosmopolita cidade do Funchal. Vários temas com variações, rondós, valsas e danças, a Polca Mazurka do madeirense Manuel Joaquim Monteiro Cabral, os Primi Passi do piemontês Ermenegildo Carosio (1886-1926), o tema com variações sobre a canção italiana Sul Margine d’un Rio e a fantasia sobre a ária Nel cor più non mi sento de Paisiello que abre o disco.

 

O CD resultante, intitulado A viola no século XIX: Música de salão na Madeira, contém quarenta faixas mais um extra, uma valsa da Coleção de Peças para Machete (1846, ed. 2009) do madeirense Cândido Drummond de Vasconcelos, que gravei com braguinha. A minha viola foi construída pelo luthier alemão Gernot Wagner em 2004. O disco surge na sequência da Coleção Madeira Música, que conta já com 8 CD-Rom+Áudio e foi criada para a recuperação do património musical madeirense.

 

 

CD A viola no século XIX: Música de salão na Madeira

Primeira apresentação: 1 de Outubro de 2014, Museu Quinta das Cruzes, Funchal

Recital: 2 de Outubro de 2014, Câmara Municipal do Funchal

 

Amostras de áudio