O pesquisador Miro Cerredelo publica no seu blogue Historia de Xinzo o meu artigo sobre a vida e obra do guitarrista galego Eulogio Gallego Martínez. Grata pela atenção e por tanto trabalho de pesquisa na zona de Ginzo de Límia.

O guitarrista galego Eulogio Gallego Martínez

1.- A família de Eulogio Gallego Martínez. A sua vila natal.

O guitarrista Eulogio Gallego Martínez nasceu em Ginzo de Límia o dia 2 de setembro de 1880[1]. Era filho de Santos Gallego Ballesteros (ca. 1851 – 1919), natural de Boia (Aliste) e Leonarda Martínez Sánchez (ca. 1858 – 1941), natural de Terroso (Seabra), os quais regentavam uma pousada na vila limense[2]. Eulogio era mais um de treze irmãs e irmãos[3] no seio de uma típica família galega de trabalhadores autónomos com um negócio liberal como a hospedagem, assentados numa pequena vila do interior galaico, com certas possibilidades económicas que lhes permitiriam criar treze filhas e filhos, dentre os quais Eulogio iria estudar desde criança a carreira eclesiástica: Primeiro com os Padres Paulos de Banhos de Molgas, depois no Seminário Maior de Ourense e, finalmente, no de Compostela.

A primeira notícia sobre a família de Gallego Martínez aparece ao ler a notícia[4] do jornal El Eco Antelano, de abril de 1912, recolhida pelo historiador Edelmiro Martínez Cerredelo no seu trabalho sobre a imprensa limiã, em que se relatam uns sucessos acontecidos entre portugueses que têm lugar na pousada de Santos Gallego, pai de Eulogio Gallego Martínez. A partir desse fio Martínez Cerredelo informa de que entre os anos 1901 e 1918 Santos Gallego aparece como proprietário de uma estalagem e ultramarinos em Ginzo[5], a partir de 1922 o negócio figura a nome da sua viúva, Leonarda Martínez, a qual continuará nos anos posteriores à frente do estabelecimento[6].

Dos irmãos e irmãs de Eulogio Gallego sabemos que estavam bem integrados na vida social limiã e que, como em muitas famílias, tinha havido irmãos nos dous bandos da disputa política do seu tempo, o fascista e o republicano. Destacam as informações sobre Aurelio Gallego, que em 1919, ano da morte do pai, é presidente do Recreo de Artesanos[7], em 1931 é nomeado fiscal do distrito de Ginzo pela Audiência Territorial da Crunha, anos depois figura como membro da Falange e em 1950 consta como proprietário de uma mercearia na mesma vila. E de Celso Gallego, que foi emigrante na Argentina, em 1931 foi nomeado tesoureiro[8] da Sociedade Filarmónica Antelana, constituida em 1929, que contava com escola de música, grupo de plectro, banda e escola de música, agrupações teatrais e musicais, salão de baile e cinema[9]. Também nesse ano é nomeado membro da Comissão Gestora Republicana em Ginzo, depois da anulação das eleições municipais do mês de abril[10]. É eleito 3.º Tenente Alcaide[11]. Pertence ao Partido Republicano Radical de Lerroux. Em 1941 figura como vice-presidente do Círculo Recreativo Antelano (Casino Antelano) e em 1950 como tesoureiro[12].

O menino Eulogio Gallego Martínez ingressa com 11 anos na escola dos Padres Paulos (Congregação da Missão) que se tinham assentado pouco tempo antes do seu nascimento, em 1869, no santuário de Nossa Senhora dos Milagres, nos Banhos de Molgas, localidade ourensana situada entre Ginzo e Ourense. Ali estuda quatro cursos de Latim e Humanidades. Depois, com 15 anos, passa ao Seminário Maior de Ourense, onde estuda os três anos de Filosofia e os quatro anos de Teologia que se ministravam naquela instituição. Morou, portanto, na cidade de Ourense, quer como aluno externo, quer como interno, durante sete anos letivos (1895-1902) num momento de atividade guitarrística fundamental na cidade[13]. Em 1902, com 22 anos de idade, começaria o ano letivo em Compostela, cidade onde passou até 1905 a estudar um quinto curso de Teologia, dois anos de grego e três anos de Direito Canônico[14]. Mas a realidade é que depois de todos os anos de estudo, dos informes de boa conduta dos seus tutores, e de quatro solicitudes, Eulogio Gallego não conseguiu sequer a ordenação de Menores e Sub-diaconado. Foi este um facto relevante que mudou o rumo da sua vida.

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5.- Eulogio Gallego Martínez em Compostela. 1902-1905.

Depois de acabar os quatro cursos de Teologia em Ourense, Eulogio Gallego matricula-se no ano letivo 1902/03 no Seminário Conciliar de Compostela, para estudar quinto ano de Teologia e três cursos Direito Canônico. É neste período onde eclode a sua fama como intérprete e vira conhecido em toda a comarca compostelana. A sua atividade musical gira em torno ao Círculo Católico de Obreros, associação religiosa que a maior parte dos afiliados eram operários e artesãos, mulheres e homens com um ofício autónomo, ainda que na direção da entidade sempre se achavam pessoas das classes dominantes, da nobreza e do clero, unidas todas por uma vocação religiosa que parece amalgamar a situação social na altura governada por uma nova Restauração bourbónica. O cronista, mestre e membro do Círculo, José María Moar Fandiño, autor da maior parte das notícias sobre o nosso guitarrista, afirma com ironia crítica que os membros dessa entidade eram alcunhados de “partido manso de socialistas católicos”[26]. Outros grandes músicos galegos, como o diretor e compositor Manuel Valverde e o pianista Enrique Lens eram protagonistas habituais das veladas do Círculo.

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