Loureiro Verde é o novo livro de música para guitarra do ourensano Manuel Herminio Iglesias Vázquez. Publicado por Dos Acordes, no prólogo que escrevi para a sua apresentação há uma breve história do seu percurso:

 

Prólogo do Loureiro Verde

 Conheci a música para guitarra de Manuel Herminio Iglesias em 2003 durante o curso em que trabalhei como professora no Conservatório de Ourense. Um bom dia, revisando partituras na biblioteca, achei aquele caderno branco adornado com um desenho de Juan Manuel Lazcano, publicado uns anos antes e intitulado Cantigas galegas. Catorce pezas para guitarra. Álbum primeiro. O assombro que senti rivalizava com a necessidade de tocar música galega no meu instrumento. As guitarristas que nascemos no último terço do século XX fomos privadas de conhecer a nossa tradição guitarrística, substituída pela castelhano-andaluza vendida como espanhola que, se bem era interessante, também imprimia no instrumento uma forte marca alheia à cultura galega. Por isso ao abrir o caderno branco e ver que tinha arranjos para guitarra de ‘Ramo Verde’, ‘Se queres que o carro cante’ e mesmo a Cântiga (‘Noturno’) de Curros e Salgado, levei uma intensa alegria. Em 2007 toquei uma seleção daquelas peças no Teatro Municipal de Bragança com motivo do 6º Colóquio Anual da Lusofonia, depois soaram no Conservatório de Compostela e mais lugares. Naquela altura já tinha decidido que conhecer, estudar e explicar a história da guitarra galega seria um dos objetivos do meu estudo musical. Como era muito inocente, não sabia que o propósito iria levar mais de uma década e quem sabe se a vida inteira.

A intenção divulgativa de Manuel Herminio Iglesias é o veículo através do que se produz a sua evolução musical. Arranjador de cantigas populares, em cada publicação foi amadurecendo como compositor para agora revelar-se como criador de um estilo próprio na música galega para guitarra. Desde aquele primeiro volume branco de 2000, com dedicatória assinada em 1999 e publicado pela A. C. Agromadas, o autor continua o seu caminho musical através da publicação dos cadernos A guitarra e a música tradicional (Centro de Cultura Popular “Xaquín Lourenzo”, 2007), Froles d’Ouro (Dos Acordes, 2012) e Rosas e Craveles (Dos Acordes, 2016). Agora celebramos a luz de Loureiro Verde (Dos Acordes, 2018) a conter nada menos que cinquenta obras para guitarra sobre melodias populares e de composição própria, em que se incluem as letras das canções, poemas de diversos autores e alguns do próprio autor do caderno do qual também conhecemos outros trabalhos jornalísticos e literários. 

Graças ao musicólogo catalão Felip Pedrell i Sabaté sabemos como era o Álbum para guitarra que o guitarrista e poeta ferrolano de ascendência basco-catalã José Maria Canals Iturain publicava em 1849 e cujo texto não está localizado. Pedrell descreve um caderno de formosa feitura onde cada peça vai precedida de um poema da autoria de Canals. Do mesmo jeito Manuel Herminio Iglesias, profundamente influído pela música e a poesia ourensana, acompanha as peças com um poema, quer a letra de uma canção popular, quer os poemas seus e os de Matilde Lloria, Curros Henríquez ou Millán Picouto. A sua evolução técnica e estética vê-se na escolha das melodias, fruto da influência dos irmãos músicos Álvaro e Manuel de Dios, da experiência do autor no grupo floque Cantigas e da releitura dos cancioneiros como o de Villalba Freire. Mas onde melhor se percebe esta evolução é nas composições originais que agora se apoiam em estruturas mais complexas da tradição guitarrística europeia como a Fantasia e a Suite. Há também uma relação íntima entre as letras e a música deste caderno, não somente na natural interação da música cantada mas também com a própria vida do autor, fruto de um certo carácter autobiográfico.

Loureiro Verde é uma seleção de peças compostas nos últimos anos, cheias de citações e ressonâncias ourensanas, onde se reúne a música de um autor que tem realizado muito mais trabalho do publicado. Contém fantasias e temas variados sobre melodias populares galegas; novos arranjos de melodias também novas e outras já tratadas em cadernos anteriores; harmonizações próprias e de outros autores; letras de cantigas recolhidas pelo autor. Destaca a Suite galega, que tenta marcar um rumo na evolução das suites ao incorporar tipos musicais como a alvorada e a marcha procesional que agora se apresentam formando uma estrutura clássica. Em definitivo, Manuel Herminio Iglesias trabalha desde a música popular pela construção de um repertório próprio e nacional para guitarra, com o objetivo de encher o atual vazio da música galega escrita para o nosso instrumento cuja pegada se deixa ver em forma de ausência nas programações das nossas escolas e conservatórios. Por isso na programação oficial do conservatório compostelano temos incluído há uns anos várias peças galegas de diversos autores, entre eles o autor de Loureiro Verde, o nosso mais prolífico e constante fornecedor de música galega para guitarra.

 

Compostela, março, 2018.

Isabel Rei Samartim

 

Ver mais em: 34 Froles d'ouro

 

A revista #Furman217 é uma iniciativa da diáspora ibérica realizada nos Estados Unidos que respeita todas as línguas peninsulares. Colaboro neste número com um artigo sobre guitarra galega em que resumo algumas das ideias que estou a tratar na minha tese de doutoramento "A guitarra na Galiza".

Revista Furman217, n.º 3 (2018). Completa.

Artigo "A guitarra galega", Furman217, n.º 3, p. 86-93.

 

O pesquisador Miro Cerredelo publica no seu blogue Historia de Xinzo o meu artigo sobre a vida e obra do guitarrista galego Eulogio Gallego Martínez. Grata pela atenção e por tanto trabalho de pesquisa na zona de Ginzo de Límia.

O guitarrista galego Eulogio Gallego Martínez

1.- A família de Eulogio Gallego Martínez. A sua vila natal.

O guitarrista Eulogio Gallego Martínez nasceu em Ginzo de Límia o dia 2 de setembro de 1880[1]. Era filho de Santos Gallego Ballesteros (ca. 1851 – 1919), natural de Boia (Aliste) e Leonarda Martínez Sánchez (ca. 1858 – 1941), natural de Terroso (Seabra), os quais regentavam uma pousada na vila limense[2]. Eulogio era mais um de treze irmãs e irmãos[3] no seio de uma típica família galega de trabalhadores autónomos com um negócio liberal como a hospedagem, assentados numa pequena vila do interior galaico, com certas possibilidades económicas que lhes permitiriam criar treze filhas e filhos, dentre os quais Eulogio iria estudar desde criança a carreira eclesiástica: Primeiro com os Padres Paulos de Banhos de Molgas, depois no Seminário Maior de Ourense e, finalmente, no de Compostela.

A primeira notícia sobre a família de Gallego Martínez aparece ao ler a notícia[4] do jornal El Eco Antelano, de abril de 1912, recolhida pelo historiador Edelmiro Martínez Cerredelo no seu trabalho sobre a imprensa limiã, em que se relatam uns sucessos acontecidos entre portugueses que têm lugar na pousada de Santos Gallego, pai de Eulogio Gallego Martínez. A partir desse fio Martínez Cerredelo informa de que entre os anos 1901 e 1918 Santos Gallego aparece como proprietário de uma estalagem e ultramarinos em Ginzo[5], a partir de 1922 o negócio figura a nome da sua viúva, Leonarda Martínez, a qual continuará nos anos posteriores à frente do estabelecimento[6].

Dos irmãos e irmãs de Eulogio Gallego sabemos que estavam bem integrados na vida social limiã e que, como em muitas famílias, tinha havido irmãos nos dous bandos da disputa política do seu tempo, o fascista e o republicano. Destacam as informações sobre Aurelio Gallego, que em 1919, ano da morte do pai, é presidente do Recreo de Artesanos[7], em 1931 é nomeado fiscal do distrito de Ginzo pela Audiência Territorial da Crunha, anos depois figura como membro da Falange e em 1950 consta como proprietário de uma mercearia na mesma vila. E de Celso Gallego, que foi emigrante na Argentina, em 1931 foi nomeado tesoureiro[8] da Sociedade Filarmónica Antelana, constituida em 1929, que contava com escola de música, grupo de plectro, banda e escola de música, agrupações teatrais e musicais, salão de baile e cinema[9]. Também nesse ano é nomeado membro da Comissão Gestora Republicana em Ginzo, depois da anulação das eleições municipais do mês de abril[10]. É eleito 3.º Tenente Alcaide[11]. Pertence ao Partido Republicano Radical de Lerroux. Em 1941 figura como vice-presidente do Círculo Recreativo Antelano (Casino Antelano) e em 1950 como tesoureiro[12].

O menino Eulogio Gallego Martínez ingressa com 11 anos na escola dos Padres Paulos (Congregação da Missão) que se tinham assentado pouco tempo antes do seu nascimento, em 1869, no santuário de Nossa Senhora dos Milagres, nos Banhos de Molgas, localidade ourensana situada entre Ginzo e Ourense. Ali estuda quatro cursos de Latim e Humanidades. Depois, com 15 anos, passa ao Seminário Maior de Ourense, onde estuda os três anos de Filosofia e os quatro anos de Teologia que se ministravam naquela instituição. Morou, portanto, na cidade de Ourense, quer como aluno externo, quer como interno, durante sete anos letivos (1895-1902) num momento de atividade guitarrística fundamental na cidade[13]. Em 1902, com 22 anos de idade, começaria o ano letivo em Compostela, cidade onde passou até 1905 a estudar um quinto curso de Teologia, dois anos de grego e três anos de Direito Canônico[14]. Mas a realidade é que depois de todos os anos de estudo, dos informes de boa conduta dos seus tutores, e de quatro solicitudes, Eulogio Gallego não conseguiu sequer a ordenação de Menores e Sub-diaconado. Foi este um facto relevante que mudou o rumo da sua vida.

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5.- Eulogio Gallego Martínez em Compostela. 1902-1905.

Depois de acabar os quatro cursos de Teologia em Ourense, Eulogio Gallego matricula-se no ano letivo 1902/03 no Seminário Conciliar de Compostela, para estudar quinto ano de Teologia e três cursos Direito Canônico. É neste período onde eclode a sua fama como intérprete e vira conhecido em toda a comarca compostelana. A sua atividade musical gira em torno ao Círculo Católico de Obreros, associação religiosa que a maior parte dos afiliados eram operários e artesãos, mulheres e homens com um ofício autónomo, ainda que na direção da entidade sempre se achavam pessoas das classes dominantes, da nobreza e do clero, unidas todas por uma vocação religiosa que parece amalgamar a situação social na altura governada por uma nova Restauração bourbónica. O cronista, mestre e membro do Círculo, José María Moar Fandiño, autor da maior parte das notícias sobre o nosso guitarrista, afirma com ironia crítica que os membros dessa entidade eram alcunhados de “partido manso de socialistas católicos”[26]. Outros grandes músicos galegos, como o diretor e compositor Manuel Valverde e o pianista Enrique Lens eram protagonistas habituais das veladas do Círculo.

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No verão de 2014 fiz um repasso pela história da música galega que sai agora publicado na Revista Identidades.

"Apontamentos para uma história social da música galega", p. 28-35:

 

Abertura do III Congresso de Estudos Celtas
“Suite Céltica para guitarra” por Isabel Rei Samartim


Na abertura do III Congresso de Estudos Celtas realizado em Narão, Galiza, em 15 de abril de 2011, soou uma obra musical para guitarra composta para a ocasião. A Suite Céltica é uma reunião de sete peças arranjadas para guitarra clássica, construídas sobre canções populares ou popularizadas de alguns países celtas: Irlanda, Ilha de Man, Escócia, Gales, Cornualha, Bretanha, Portugal e Galiza, que serviram de fio condutor de uma obra que descumpre as condições da Suite no seu sentido clássico, pois não mantém a mesma tonalidade em todas as peças, nem alude aos mesmos motivos musicais, nem o conjunto é produto de um único autor/adaptador. Porém, na minha opinião é essa confluência de elementos diversos a que melhor representa a ideia da celticidade latente nos moradores do atlântico. [...]

Suite Céltica (pdf)

Atas completas do Congresso "Os Celtas da Europa Atlântica" (pdf)