Em 11 de setembro de 2020 o professor brasileiro Gilberto Cardoso dos Santos convidou-nos ao professor Xoán Lagares e a mim para participar num bate-papo virtual em volta do que na Galiza chamamos de Galego, que é mais uma variedade do português universal, a variedade primeira, origem da língua portuguesa. A conversa trata de diversos temas e serve para aprofundar no conhecimento que as pessoas dum e doutro lado do Atlântico temos sobre a nossa comunidade linguística e cultural.

 

 

Estas quatro moinheiras, anónimas, escritas para guitarra foram descobertas em quatro fundos diferentes na Galiza. A primeira pertence à coleção do guitarrista pontevedrês Javier Pintos Fonseca (1869-1935), conservada no Museu da Ponte Vedra. A segunda está manuscrita no Caderno do Francês, assim chamado por conter uma boa coleção de canções para voz e guitarra sobre motivos da guerra contra os franceses (1808-1814). A terceira acha-se num método para guitarra anónimo da última década do s. XIX, dentro do Fundo Local de Música de Rianjo. E a quarta é a moinheira do fundo da família Valladares, que junto com as mais de trinta moinheiras para outros instrumentos constitui o conjunto destas danças galegas de maior amplitude dentro dos fundos galegos.

 

 

 

Esta obra do virtuoso galego Juan Parga Bahamonde foi descoberta no fundo guitarrístico de Javier Pintos Fonseca, conservado no Museu da Ponte Vedra. Este vídeo foi gravado na primeira semana do mês de junho de 2020, durante o confinamento da Covid-19 em Santiago de Compostela (Galiza), e projetado no ato de defesa da tese "A guitarra na Galiza".

  

 

 

 

Nossas dores, se passadas,
Em breve são esquecidas.
As das pessoas amadas,
Não findam mais. São retidas.

F. Corrêa de Oliveira (1976)

Achega-se o final da obra e Corrêa de Oliveira descobre, no passado oculto do seu pai como guitarrista de fado, que o que sentimos pelas pessoas amadas dói mais do que as dores próprias que "se passadas, em breve são esquecidas". A dor é finita. O amor quebra o tempo. A sexta das Sete peças para guitarra Op. 30.

 

Nesta última peça do compositor portuense Corrêa de Oliveira aparece explícita a referência medieval na figura da galega Inês de Castro, esposa do rei Dom Pedro de Portugal, e a relação da sua morte com a cidade de Coimbra, que preside toda a obra. A identificação de Inês com Maria Feliciana é quase imediata na quadra que ilustra a música:

Eu quero ver-te viva, além fronteira
Beijar a tua mão rosada e quente.
Eu quero ver-te grácil, altaneira,
No meio próprio, Inês, com tua gente!

 

Também no YouTube: 

https://www.youtube.com/watch?v=-p79LjUCxRc

https://www.youtube.com/watch?v=jLFr-jMK4IE

 

 

Naqueles muros, ora sob as águas,
Perduram vozes doutras gerações:
São cantos, preces, áis de fundas máguas,
Murmúrios de secretas confissões.

Fernando Corrêa de Oliveira (1976)

O compositor toma a profundidade da história, que depois se verá galego-portuguesa, para representar a profundidade do seu lamento pelos seres queridos perdidos. A quarta das Sete peças para guitarra Op. 30.

 

O compositor perdeu a esposa, Maria Feliciana, em 1972 e o pai, Horácio, em 1973. Nesse período doloroso debruçou-se na composição de obras de inspiração medieval galego-portuguesa, período histórico que lhe calmava as dores, talvez por achar nele algo de eterno e atemporal. Nessa particular luta contra a passagem do tempo, Corrêa de Oliveira desenvolveu o Discantus Simétrico, aplicação do sistema compositivo da sua autoria à música medievalizante. Três anos mais tarde veremos também a aplicação do seu sistema na guitarra e a referência histórica medieval nesta Op. 30. A quadra da quinta peça é uma reflexão sobre os seres finitos e o passado que permanece.

 

Não sei se, quando busco o passado,
Procuro aqueles todos que perdi,
Ou a mim mesmo, antes de mudado
Por quanto a própria vida é em si.

 

Fernando Corrêa de Oliveira (1976)

  

 

 

A segunda das Sete peças para guitarra Op. 30 de Fernando Corrêa de Oliveira (Porto, 1921-2004), está ilustrada com uma estrofe do próprio autor sobre os devaneios da vida estudantil em Coimbra. O motivo da composição desta obra são as lembranças que o compositor entesoura sobre o seu pai, possível guitarrista de fado nessa cidade portuguesa. Mecanografado do autor:

Oh ruas coimbrãs, por noite escura,
Caladas, solitárias, paradas,
Por vós vagueiam, sonham, em procura,
As almas, do amor desamparadas. (FCO, 1976)

  

 

 A terceira das Sete peças Op. 30 fala do tempo da ventura e da mocidade na Lusa Atenas (Coimbra). A música adentra-se nas lembranças e lamentos do compositor cada vez mais identificado com o pai, falecido em 1973 e motivo inicial da obra.